Os Dez Mandamentos e os Pecados Organizacionais

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Os Dez Mandamentos e os Pecados Organizacionais

Setenta por cento dos executivos acreditam nos Dez Mandamentos de Deus, mas apenas 20% os cumprem Como convivem os preceitos contidos nos Dez Mandamentos de Deus e os comportamentos vividos nas organizações atuais?

Este artigo apresenta a resposta, dada através de uma pesquisa inédita realizada com profissionais de marketing e comunicação, em amostragem nacional.

Exercendo o papel de intermediários entre a organização e os consumidores, e como participantes das decisões de mercado nas empresas, seria de se esperar que esses profissionais oferecessem produtos de real qualidade e que divulgassem apenas verdades sobre os produtos. A pesquisa, porém, revelou vários pecados cometidos pelas organizações, que infringem diretamente as leis divinas. A busca do dinheiro a todo custo pode estar estimulando ações antiéticas e prejudiciais ao mercado e aos colaboradores das próprias organizações. Citados como grandes causadores da não harmonia e de um clima desfavorável nas organizações, a inveja, a ganância e a busca do poder, bem como relacionamentos extra-conjugais entre os funcionários, têm se tornado as faltas mais significativas contra os preceitos de Deus.

A busca do dinheiro a todo custo pode estar animando ações antiéticas e prejudiciais ao mercado e aos colaboradores das próprias organizações

A pesquisa desenvolveu-se em duas etapas. O levantamento qualitativo envolveu 760 testemunhas, que serviram de base para o elenco dos principais problemas de relacionamento nas organizações, bem como das falhas mercadológicas. Após a análise dos dados qualitativos, elencaram-se os dez principais problemas ou “pecados” organizacionais, os quais foram relacionados com os Dez Mandamentos de Deus. Para apurar o grau de ocorrência desses pecados nas organizações de todo o Brasil, realizou-se pesquisa quantitativa com aproximadamente seis mil profissionais. Com a amostra de 391 executivos, obteve-se um índice de confiabilidade de 95% e margem de erro de 5%.

Os Mandamentos do Mercado e os Mandamentos de Deus

A primeira pergunta feita a esses profissionais foi: Você acredita nos Dez Mandamentos? Dentre os entrevistados, 70,77% disseram “sim”, 9,88% responderam “não”, e 19,35% mostram-se indiferentes ao assunto ou não conhecem os Dez Mandamentos. Embora se possa considerar normal o fato de aproximadamente 10% dos executivos não seguirem alguns dos Dez Mandamentos – dado que são pessoas que vivem conforme a dinâmica do mercado, em que os bens materiais estão acima de qualquer outro valor –, revelou-se curioso descobrir que dois em cada dez executivos não os conhecem ou são indiferentes ao assunto.

Os executivos vivem numa linha tênue entre o bem e o mal e suas ações não dependem apenas do seu desejo pessoal, mas também das exigências da política e das normas das organizações

Perguntou-se, então, se dentro da organização o executivo está certo de que pratica os Dez Mandamentos. Os resultados, a partir daí, começam a se tornar surpreendentes: apenas 20,29% dizem praticá-los nas organizações; outros 11,25% não os praticam; e, o mais impressionante, 50,86% afirmam praticá-los de acordo com as possibilidades. A ética pessoal, frente à dinâmica das organizações, pode estar perdendo valor ou simplesmente sendo neutralizada, com implicações no comportamento dos funcionários ou nas próprias decisões de marketing junto ao mercado.

Comparando-se os resultados das duas perguntas anteriores, chegou-se a uma conclusão preocupante: apenas pouco mais de 20% dos executivos afirmam seguir esses preceitos nas organizações. Esse dado pode significar, por exemplo, que apenas 20% das pessoas nas organizações não mentem, não cultuam apenas o dinheiro como objetivo existencial e respeitam os pais. O resultado geral mostra que os executivos vivem numa linha tênue entre o bem e o mal, e que suas ações não dependem apenas do seu desejo pessoal, mas também das exigências da política e das normas (formais e informais) das organizações.

Apresentam-se, a seguir, os dez pecados organizacionais, em confronto com o mandamento divino descumprido.

I
“Amar o dinheiro sobre todas as coisas” X “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento”;
“Não terás outro Deus além de Mim”

A pesquisa indicou uma forte preocupação dos executivos com a postura das organizações, que colocam, segundo eles, o dinheiro e o lucro acima de tudo, desprezando o primeiro mandamento de Deus. Aproximadamente 54% dos executivos acreditam que as empresas onde atuam buscam o dinheiro antes de qualquer coisa, esquecendo, inclusive, a responsabilidade social e a preocupação com o bem-estar dos próprios colaboradores da empresa.

II
“Jurar ou prometer a um terceiro e não cumprir” X “Não pronunciarás em vão o Nome do Senhor teu Deus”

Quando se mente a um cliente ou fornecedor sobre determinado produto ou serviço comete-se mais um dos pecados organizacionais. A pesquisa indicou que 60,61% dos executivos acreditam que as empresas mentem ou usam de má-fé para conquistar seus objetivos, sugerindo que o mercado pode estar tomado por hipocrisia e falsidade. Nesse contexto, o uso da mentira torna-se legítimo se proporcionar o alcance dos objetivos mercadológicos.

III
“Trabalhar dia e noite, inclusive ao final de semana, esquecendo-se de tudo, em nome da organização” X “Lembra-te do dia do Sábado para santificá-lo”

Até que ponto devemos abdicar do tempo reservado para nosso entretenimento, nossa família e amigos em nome da organização? Praticamente metade do número dos executivos, 43,47%, afirma que muitos profissionais cometem este pecado, deixando de lado o seu lazer e os compromissos familiares e sociais para se dedicar somente aos compromissos profissionais.

IV
“Esquivar-se da família e dos amigos, para dedicar-se totalmente à organização” X “Honra teu pai e tua mãe”

Um dos grandes problemas nas organizações é a doença social que afeta as pessoas que nelas trabalham. Mais da metade dos executivos (53,19%) acredita que as pessoas deixam a família de lado para dedicar-se totalmente à organização. A pesquisa indica que uma organização definitivamente não vive de emoções.

V
“Conquistar mercado, mesmo que seja destruindo e ‘matando’ os concorrentes, a sociedade e os próprios clientes” X “Não matarás”

Dentre os executivos, 45,78% afirmaram crer que as organizações, ao tomarem suas decisões de gestão, terminam por contribuir, direta ou indiretamente, para a “morte” dos clientes, dos concorrentes e da própria sociedade.

As organizações “matam” os clientes quando oferecem produtos ou serviços de pouca ou nenhuma qualidade. Também matam a concorrência, por considerarem que ela é prejudicial a sua organização. Não vêem que a competitividade entre empresas é salutar ao mercado, pois com ela se tem parâmetros sobre a qualidade dos produtos, além de proporcionar a melhoria contínua na produção de bens. Por fim, mata-se a sociedade, quando se excluem milhões de pessoas do mercado consumidor, gerando inclusive fome, miséria e morte. Morrem por dia, de fome, vinte e cinco mil pessoas no planeta.

Esse resultado da pesquisa mostra a situação em que vivem os executivos brasileiros, pois mesmo vivenciando atos contrários a sua vontade e aos seus preceitos éticos eles continuam nas organizações, por medo de exclusão do grupo de trabalho, de punição ou demissão ou, ainda, por falta de melhores oportunidades.

VI
Na fuga da família e do amor começam a se estabelecer diversos casos/relacionamentos entre funcionários” X “Não cometerás adultério”; “Não cometerás atos impuros”

Talvez este assunto seja o mais delicado dentre os pecados organizacionais citados neste artigo: os relacionamentos extraconjugais entre colegas de trabalho. Cerca de 37,85% dos executivos acreditam que esse tipo de situação ocorre dentro das organizações. Contudo, este é o único resultado da pesquisa quantitativa em que devemos considerar a possibilidade de uma margem de erro maior, pois muitos dos entrevistados, por receio das conseqüências, preferiram omitir sua verdadeira opinião.

VII
“Praticar atos comerciais no mercado em que não há uma troca justa, acarretando, muitas vezes, prejuízo ao próximo” X “Não roubarás”

Acredita-se que o roubo é uma prática comum nas organizações, pois 52,17% dos executivos afirmam que ele ocorre inclusive nas empresas onde trabalham. Foram citados, na pesquisa, o roubo de bens, o roubo de dinheiro e o roubo de idéias.

O roubo de bens ocorre, por exemplo, quando uma indústria madeireira explora as matas nativas em busca de matéria-prima para a produção de móveis. Peca-se, assim, ao explorar recursos naturais preservados, fundamentais para a sobrevivência das espécies.

O roubo de dinheiro ocorre quando uma organização oferece ao consumidor produtos ou serviços de qualidade discutível, ou quando agrega características irrelevantes às necessidades reais dos consumidores para justificar aumento de preço.

O roubo de idéias pode se dar tanto dentro como fora de uma organização. Muitas empresas se apropriam de idéias dos concorrentes infiltrando agentes para conseguir informações privilegiadas. A competitividade do mercado, porém, já fez a espionagem comercial ser considerada um ato normal. Outra grande reclamação, na pesquisa, foi o roubo de idéias que acontece dentro das organizações, quando colegas ou superiores se apropriam de projetos dos quais não participaram e os apresentam sem fazer qualquer referência aos seus reais autores.

VIII
“Fomentar política em benefício próprio, fofoca, inveja, ganância e outros comportamentos que prejudicam o próximo” X “Não prestarás falso testemunho contra teu próximo”

O falso testemunho no interior de uma organização é um dos fatores que mais contribuem para que surjam problemas de relacionamento, pois 64,45% dos executivos acreditam que a maledicência ronda o seu meio de trabalho diariamente. O uso da má política em benefício próprio ou de um determinado grupo é comum na grande maioria das organizações. Abraços, beijos, sorrisos e elogios préformatados e previamente calculados são algumas das ações que a pesquisa indicou como ferramentas para a conquista de objetivos pessoais.

IX
“Utilizar poder e persuasão para conquistar e seduzir o próximo” X “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”

Sabe-se da existência do uso de poder para conquistar as pessoas numa organização, porém somente 27,36% dos executivos o citaram. A pesquisa indicou que não são apenas as mulheres que sofrem assédio sexual. Começa a haver uma crescente reclamação sobre mulheres que utilizam o poder para seduzir os homens nas organizações.

X
“A organização pensa apenas em dinheiro e em seu crescimento no mercado” X “Não cobiçarás coisa alguma que pertença ao teu próximo”

Uma receita para a empresa caminhar para o insucesso ou falência é o desejo de ganhar, a qualquer custo e por quaisquer meios, mais mercado ou dinheiro. Mesmo assim, 37,08% dos executivos crêem que as empresas buscam o crescimento custe o que custar. Observa-se, neste levantamento, que os executivos das organizações que seguem esse direcionamento são indivíduos que se mostram preparados para tudo, vivendo numa linha tênue entre o fracasso e o sucesso.

O Equilíbrio Necessário

Sabe-se que as organizações são entidades divididas entre a razão e a emoção. A razão do mercado é o lucro, porém a administração das organizações é movida pela emoção de seres humanos. Esse duelo entre razão e emoção é que determina o sucesso ou fracasso de uma entidade voltada ao mercado. O resultado da pesquisa apresentada neste artigo indica que as organizações brasileiras ainda estão muito longe do equilíbrio necessário, o que se reflete diretamente no comportamento dos seus colaboradores. Contudo, a pesquisa sugere também que os executivos acreditam que esse estado de coisas possa ser alterado e que o equilíbrio possa ser alcançado.

Vive-se um momento difícil, de crises e incertezas. Somos surpreendidos diariamente pela violência, cujos índices aumentam assustadoramente. Paradoxalmente, porém, vemos também o crescimento da busca pela recuperação dos valores éticos, pela valorização da família e da qualidade de vida. Amplia-se, na sociedade, a luta pelo bem-estar e harmonia dos cidadãos, acompanhada de uma explosão generalizada pela busca de explicações sobrenaturais para os mais diversos questionamentos.

O mercado está muito longe de ser justo, pois a ética dos colaboradores muitas vezes desaparece quando o dinheiro começa a faltar no bolso das pessoas ou no caixa da empresa, e o “sim” para qualquer negócio que possa suprir essa necessidade financeira acaba sendo dito. De outro lado, o fenômeno Deus continua exercendo uma forte e positiva influência nos indivíduos, pois se com Ele vivemos num mundo de incertezas, sem Ele o caos generalizado parece ser o cenário provável.

Marcelo Peruzzo
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