A diferença entre o “cocô” americano e o “cocô” brasileiro

Marcelo Peruzzo > Comportamento  > A diferença entre o “cocô” americano e o “cocô” brasileiro

A diferença entre o “cocô” americano e o “cocô” brasileiro

Não se assuste! Você leu corretamente o título acima. Existe uma diferença entre o “cocô” americano e o “cocô” brasileiro e – novamente – esta é uma diferenciação por posicionamento. Não deixe de ler este artigo revelador.

Posicionamento é na essência a maneira como você deseja ser lembrado e reconhecido pelo mercado consumidor. Nesse campo ainda temos muito que aprender com os profissionais de marketing Norte Americanos.

Em uma das dezenas de aulas de pós-graduação que profiro, um aluno me questionou sobre essa questão escatológica.Disse ele:

– Professor, o senhor já viu um site que vende cocô de cachorro na internet?
Surpreso, não acreditei de início. Contudo ao retornar para meu hotel resolvi conferir o endereço que ele havia me recomendado (www.dogdoo.com), e de fato, lá estavam pacotes especiais de cocos sendo comercializados. Os preços variavam de U$ 15,00 a U$35,00, e tinham como critério a raça do cachorro, a quantidade e o tipo do excremento. De fato, algo que a principio me soou bizarro e ridículo, estava ali concretizado por meio de uma feliz estratégia de marketing.

Ali na minha frente o Marketing Americano se provava eficaz até na venda de fezes. Bastou para tanto que os desenvolvedores tivessem feito suas lições de casa nas aulas de “Posicionamento”. Afinal de contas – é a pergunta que não quer calar – o que leva um consumidor a investir o seu ordenado, fruto do seu trabalho, para que comprar cocô?
Aí entrou a questão do posicionamento correto. Os dejetos caninos são enviados para desafetos por correspondência em ornadas embalagens de presentes. Um posicionamento irônico – é fato – mas bem sucedido. Bom, voltemos ao Brasil. Recentemente estava em Natal (RN) dando uma de minhas aulas, e aproveitei o sol de Domingo para passear de buggy pelas dunas de Genipabu. Coisas que somente a experiência e o tempo proporcionam, Senhores! Durante o trajeto, o “bugueiro” me ofereceu um complemento ao passeio. Por um preço convidativo iríamos de Natal a Fortaleza, pelas praias. Uma deixa interessante e barata, que me colocou curioso em relação a detalhes do “pacote”. Entre as dúvidas que me acometiam perguntei sobre os hotéis em que iríamos ficar. O “bugueiro” então explicou que no trajeto, não ficaríamos em hotéis, mas sim em pousadas mais simples. Perguntei então, qual o nível de conforto destes locais. Ele respondeu eram lugares muito bonitos, contudo sem luxos excessivos. “Sem muita frescura, Doutor” – e começou a rir. A história que se seguiu complemento o case de hoje e – desculpas as senhoras que me lêem nesse momento – versa sobre “cocô” novamente. Era um caso que havia acontecido há poucos dias, sobre como estava equivocado o posicionamento de marketing daquele cidadão. Um turista europeu, carregado de euros para gastar no Brasil, fez o trajeto proposto. No meio do caminho, já bem próximos da praia de Jericoaquara no Ceará, o cidadão precisou ir ao banheiro “fazer cocô”. Era uma daquelas emergências imediatas. Daquelas urgências calamitosas onde cada segundo conta, e nosso amigo europeu foi fazer seu serviço em uma pousada próxima de onde estavam. Contudo o turista não contava com a estrutura – ou a falta dela – que iria encontrar. Ao entrar no banheiro, notou que o teto não existia. Ainda que sentado pudesse ver as belezas do céu azul, estava suscetível as vicissitudes da natureza. Sob um ponto de vista positivo estaríamos oferecendo uma visão panorâmica ao turista. No entanto – já não bastasse o ridículo de fazer cocô sem teto – nosso visitante foi surpreendido, com um invasor na sua privacidade. Unhas apareceram no teto sendo seguidas de um enorme calango. Um daqueles lagartos verdes e horríveis, colocou sua cabeça a vista do turista, e lhe mostrou aquela lingüinha simpática.

Nós temos que interpretar essa história sob a ótica cosmopolita de um cidadão europeu. Definitivamente eles não tem calangos na Europa. Nosso amigo ficou de tão apavorado, contou o “bugueiro” passou o resto da sua estada constipado, travado e receoso de voltar aos banheiros Tupiniquins. Imagine a história que esse turista não pintou na sua terra natal sobre suas aventuras façais em terras nacionais? Algo como, “Um dinossauro quase me atacou em um banheiro sem teto!” Bom, a reflexão que tiramos é que existe posicionamento até no cocô. Enquanto para alguns existe lucratividade até nesse campo escatológico, nosso amigo “bugueiro” expulsou um abonado europeu da sua viagem insólita. Sinceramente, conhecendo bem outras praias famosas do mundo, seja no Caribe ou nas Ilhas Gregas (mar maravilhosamente azul, mas nunca vi tanta pedra junto), nos não perdemos nada em beleza natural para estes lugares. O que nos falta é posicionamento, não de turismo sexual, mas de turismo ecológico, cultural, etc.

Com permissão, vamos voltar ao passado. Em 1996, o PIB do Brasil era o dobro do México. Em 1998, assisti uma palestra de um famoso conferencista, onde em um dos seus slides afirma que o PIB do Brasil representava 42% da América Latina, incluindo o México. No slide seguinte, falava que se o Brasil quebrasse, o México quebraria 30 minutos depois. Em 2000, no dia 12 de Setembro, Joelmir Beting, comenta um estudo da Ernst & Young Consulting sobre “o tamanho é documento” das empresas do Brasil e da América Latina. Ele afirma que entre as 100 maiores da região, figuram 38 brasileiras e 38 mexicanas, porém que o PIB do Brasil é 44% maior que o PIB do México.

Depois de tanta tiração de sarro com os Mexicanos, em 2002/2003, observou-se um fato interessante, onde o PIB do Brasil ficou nos U$ 452,00, e do México, pobrinho e propenso morto de uma possível catástrofe brasileira, um PIB de U$637,00, ou seja, significativamente maior que a do Brasil. O porque disso tudo? Talvez porque enquanto tiramos sarro deles, eles aplicam posicionamento inteligente em seu turismo, investem no NAFTA, e aprendem a fazer marketing de resultado. Um detalhe,vá para Cancum em qualquer período do ano, e você notará a cidade sempre lotada e movimentada. Então, no meu passeio em Genipabu em Junho, contei nas dunas, apenas 3 bugues fazendo o passeio. Cadê os turistas? Eles precisam conhecer o nosso Pais! O nosso nordeste maravilhoso, e de um povo, hospitaleiro demais, bom demais.

Pois é, pena que o nosso posicionamento lá fora não ajuda muito, pois apesar de considerar um projeto humanitário plausível e com boas intenções, o Fome Zero, acabou com a nossa bandeira, que de linda e majestosa, virou uma bela toalha de mesa com um prato, um garfo e uma faca. Bom, até que não ficou feio, mas na boa, se eu fosse um Europeu com muito dinheiro para gastar em turismo, o que faria em um pais que precisa de comida e tem fome? Ah! Com certeza iria para Cancum! Senhores, não estou criticando ninguém, mas enquanto nos posicionarmos como esfomeados, é isto que teremos, apenas comida. Eu quero dinheiro, indústrias, investimento e economia em crescimento.

Também concordo que o governo está se esforçando, e independente da minha preferência política, estou torcendo e muito para que tudo dê muito certo. Para terminar e instigando uma reflexão: Será que no México não existem mais pobres? Não sei, mas mesmo que exista, posicionamento é tudo, quem posiciona riqueza traz riqueza, que diga os Estados Unidos, e quem posiciona pobreza, traz uma frase: “Ah! Que peninha deles. Vamos dar comida!”.

Moral da história: Se atualmente já possuímos um potencial turístico, com estrutura física, belezas naturais e um povo maravilhoso e receptivo, porque não nos posicionarmos de fato como devemos, demonstrando o sucesso brasileiro lá fora. Não precisamos vender cocô para ganhar mercado, mas sim o turismo espetacular, com praias maravilhosas e claro, a nossa água de coco (sem acento), bem gelada.

Marcelo Peruzzo
No Comments

Post a Comment

Comment
Name
Email
Website