A Escravidão Silenciosa

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A Escravidão Silenciosa

O povo brasileiro é lutador, perseverante e não desiste nunca, mas infelizmente, em sua maioria, vive numa absoluta ignorância.

Mas não é quem lê este artigo ou quem tem acesso à informação que sofre desse problema, e sim aproximadamente 71% da população brasileira que possui renda familiar mensal abaixo dos mil reais e luta diariamente por condições para sobreviver.

Uma das razões desse déficit cultural está na realidade do professor brasileiro. Muitas vezes herói, ele se mantém com um salário vergonhoso e suficiente apenas para atender a suas necessidades básicas. Ou seja, o valor de sua remuneração o impede de buscar qualquer tipo de atualização profissional. Para ele, não há chance de reciclagem. Em contrapartida, no Canadá um professor do mesmo nível ganha em média US$ 2,5 mil e tem à sua disposição umas infra-estruturas sociais, educacionais e médicas de alta qualidade oferecida pelo governo.

Outra diferença significativa: o povo brasileiro recebe uma educação básica. Já o canadense desfruta de uma educação de qualidade, característica dos países desenvolvidos. Na prática, quem sabe mais, delega; quem sabe menos, obedece. No caso dos brasileiros, a maior parte deles apenas obedece. Cabem a estes as questões operacionais do contexto em que estão envolvidos. Os assuntos estratégicos, por sua vez, estão sob a responsabilidade de quem pode e de quem, por conseqüência, ganha mais. O estudante canadense de 16 anos, mesmo freqüentando a escola pública, fala e escreve tanto em inglês como em francês e tem a seu dispor um computador de uso individual com acesso à internet de alta velocidade na própria escola. Qual a chance do brasileiro perante esse adolescente?

Vamos abrir os olhos! O povo brasileiro não tem a mínima condição de competir com esses jovens altamente capacitados – mérito deles, azar da gente. Triste ver que o objetivo de um estagiário de administração, em muitos casos, é atuar em uma empresa e dizer a seu chefe: “Good morning, boss”, porque é “chic” trabalhar em uma “múlti”. Admirável é assistir ao moleque canadense se preparando para ser o CEO da mesma multinacional. Precisamos reverter isso! O brasileiro não pode continuar sendo o servo do Primeiro Mundo, um escravo moderno, sem correntes ou chibatadas, mas com tarefas programadas. Nossa fama de ótimos trabalhadores operacionais corre o risco de, a qualquer hora, perder valor diante de uma máquina sem nacionalidade, um robô, que consiga executar nosso trabalho de forma até melhor e a um preço mais barato. Coitado é o catador de lixo, prestes a perder seu humilde serviço assim que a população se conscientizar da importância da reciclagem e dar outro direcionamento a seu lixo. O que fará o catador? Dinheiro ele vai buscar, nem que seja na casa da gente. “Pare, Peruzzo! O que é isso?” Tá bom! Mas você lembra, por exemplo, quantos profissionais operando nos caixas de banco existiam dez anos atrás? Você percebe quantos são hoje? Ao prestar atenção em nosso quadro político, nas pessoas que assumem papéis importantes em nossa sociedade, pergunto-me: até que ponto é certo um médico assumir a responsabilidade pela economia brasileira? Desculpem-me, mas quero nessa função o melhor economista e no hospital, o melhor médico. Afinal, apenas boa vontade não é suficiente para desempenhar adequadamente determinados papéis. Portanto, não quero que me peçam para “tirar a bunda da cadeira” para buscar algo melhor se não consigo ver a recíproca. Mas, enfim, sou brasileiro e nunca desisto. Por isso mesmo não vou esperar que alguém salve a minha vida, me arrume um emprego dos sonhos ou aquele pedaço de terra. Quero mais! Entendi: eu sou a solução!

Eu sou o produto, a marca. Eu tenho que fazer a diferença. Para isso, tenho que estudar sempre, sempre. Tenho que entender que marketing pessoal é tudo para minha sobrevivência. Sabe por quê? Porque quero fugir da operacionalização que querem me empurrar e lutar pela estratégia. Sem essa de ser escravo moderno! Quero estar preparado para ajudar o próximo com qualidade, e não apenas com boa vontade. Boa vontade sem qualidade não ajuda; atrapalha. Quero fazer o melhor para minha família e para o mundo. Nunca se viram tantos jovens com pouco mais de 20 anos – com grande vivência teórica, mas contato virtual com a prática – dando aulas para nossos futuros profissionais, especialmente nas inúmeras faculdades privadas deste país. A verdade é que, por aqui, o professor deixou de ser respeitado há muito tempo. Primeiro pelo que ganha. Segundo, porque os alunos são clientes de fato – sem noção dos deveres que lhes competem, reclamam de tudo e ainda se permitem dirigir aos professores comentários como: “Professor, cala a boca, porque quem paga o seu salário sou eu.” No mercado de trabalho, então, ser professor é um fiasco. Quantos mestres e doutores ocupam cargos de direção em empresas? Muito poucos. O motivo? O saber do professor é teórico; ele não entende nada de mercado – paradigma puramente brasileiro. Que pena! Mais uma vez: cadê a educação do empresariado nacional?, ou melhor, cadê o preparo do professor em relação ao mercado? Recentemente fiz uma pesquisa com mais de 13.196 jovens, que constatou que 70% deles pretendem passar pelo menos de 1 a 3 anos fora do Brasil, buscando oportunidades e qualificação.

Graças a Deus e ao meu trabalho, conheço o Brasil de ponta a ponta. Por que será que Pimenta Bueno, em Rondônia, encolheu depois da exploração da madeira na década de 80? Por que será que existem praças públicas em algumas capitais do Nordeste tidas como locais de prostituição, nos quais as “trabalhadoras” possuem cadastro e autorização para a prática da profissão? Por que será que a maioria das terras de Petrolina, em Pernambuco, não é mais dos moradores locais? Uma única resposta para todas as perguntas: falta de educação. Não agüento mais teoria! Vamos partir para a educação de fato. Forneça dinheiro ao pobre ignorante e ele vai perdê-lo todo, em função da falta de conhecimento necessário para administrar finanças. Duvida? Dê uma olhadinha nos milionários que ganharam o prêmio da loteria esportiva há 20 anos ou os garimpeiros de Serra Pelada. Grande parte deles hoje, além de não ter mais nada de sua riqueza, ainda está devendo. Ofereça comida e trate as pessoas como animais. Depois que ela acaba, a fome volta e torna-se a pedir mais comida – caracterizando um ciclo animal, e não humano. Por outro lado, em vez de apenas dar dinheiro e comida, ofereça educação e veja aonde chega este país, que apesar de tudo insiste em crescer, em demonstrar poder, potencial e gente que faz a diferença. Imagine este povo com educação! Aí, sim, ninguém mais segura este grande Brasil!

Marcelo Peruzzo
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