A Utópica Qualidade de Vida Egoísta

Marcelo Peruzzo > Comportamento  > A Utópica Qualidade de Vida Egoísta

A Utópica Qualidade de Vida Egoísta

Estava em Goiânia, em uma corrida contra o relógio, precisando partir para a cidade de Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná.

O desafio era chegar a tempo ao compromisso profissional marcado para as 19h. De Foz do Iguaçu, onde cheguei às 14h, liguei para a rodoviária.
Soube, então, que o ônibus disponível para o destino desejado, cuja passagem custava R$ 20,00, estaria em Cândido Rondon apenas às 20h30, o que me causaria um atraso bastante grande. Em nome da assiduidade, que traz ao profissional respeito e credibilidade, investi R$ 200,00 pegando um táxi especial.

O taxista, bom de conversa, em poucos minutos já sabia das minhas andanças por este Brasil e, claro, da minha vida agitada. A caminho de Marechal Cândido Rondon, passamos pelo Rio Paraná e por diversas pequenas cidades – algumas tão pequenas que as placas “Seja Bem-Vindo” e “Volte Sempre” eram separadas pela “grande” distância de 200 metros. Diante de uma dessas pequenas cidades, o taxista falou:

– Doutor, tá vendo o pessoal na varanda das casas, na maior tranqüilidade e sem preocupação com a vida, em plena tarde de terça-feira? Que inveja, hein, doutor? O senhor não gostaria de ter uma vidinha dessas, bem tranqüila, sem essa correria louca?

Refleti e respondi:

– Com certeza não queria essa vida pra mim.

– Mas, doutor, todo mundo quer ganhar muito dinheiro pra depois ter uma tal de qualidade de vida. Essa turma não tem qualidade de vida?

Com paciência, expliquei o porquê do meu não ostensivo.

– Amigo, acredito que todos nós temos uma missão, seja ela espiritual, pessoal ou profissional, que, em determinados momentos de nossa vida, exige que não pensemos apenas de forma egoísta em nós mesmos, mas sim no todo.

– Não entendi – afirmou o taxista.

– Então, vou exemplificar. O senhor tem filhos? – perguntei.

– Sim. Tenho um casal.

– O senhor já deixou tudo preparado pra eles, como, por exemplo, uma boa quantidade de dinheiro, deu a eles um estudo de qualidade?

– Não, doutor. Ainda falta muito. Quem me dera ter feito tudo isso!

– Digo ao senhor que os maiores patrimônios repassados aos filhos são o conhecimento, a experiência e, principalmente, o exemplo como homem. Definitivamente, não quero deixar para a minha filha a imagem de um pai deitado em uma rede, numa terça preguiçosa, vendo a vida passar. Quero deixar a lembrança de um pai que a acompanhou, não apenas pelo amor incondicional que se tem pelos filhos, mas pela necessidade de torná-los aptos a viver nesse ambiente em constante mudança, cheio de oportunidades e ameaças. Quero estar lúcido, atento aos fatos diários, para poder conversar com ela, de igual para igual, o que, infelizmente, muitos pais não conseguem mais por estarem fora de sintonia com a família. E tem outra coisa importante: sei que faço parte do todo e que preciso contribuir para o crescimento de um mundo justo e do bem, por meio do meu trabalho e das minhas atitudes. Eu não teria a coragem de esperar o mundo rolar curtindo uma soneca de final de tarde de uma terça-feira.

– Puxa, doutor! Não tinha pensado dessa forma.

– Quero chegar aos 90 anos, sim, com saúde e lucidez para viajar muito pelo mundo, aproveitar a companhia da família, de meus futuros netos, acessar muito a internet e descansar também, tanto o corpo como a alma. Até lá, quero produzir, trabalhar e ser útil para a sociedade. Sei que é uma escolha pessoal, mas esse negócio de buscar uma cidadezinha para relaxar e ver o tempo correr, com o sentimento de dever cumprido, é uma verdadeira “utopia da qualidade de vida egoísta”.

– Que coisa, doutor! Mas se o senhor tivesse 5 milhões de dólares, não optaria por essa vidinha simples e pacata?

– De jeito nenhum! – respondi. – No mundo dinâmico em que vivemos, perderia esse dinheiro todinho em poucos anos, justamente por conseqüência da minha possível preguiça de viver.
O taxista refletiu e disse:

– Essa conversa me fez lembrar da minha avó. Ela era muito humilde e teimosa para aceitar as mudanças. Sabe… Sem a ajuda dos filhos, ela passaria seus últimos dias numa necessidade tremenda. O senhor acredita que ela vendeu alguns alqueires de terra e guardou o dinheiro dentro de uma almofada? O tempo passou, e o dinheirão que ela tinha deixou de valer, virando nada.

– Parabéns! Você entendeu o que eu disse. O dinheiro da sua avó é como o nosso conhecimento: se não nos mantivermos atentos e atualizados, podemos terminar no isolamento e no fracasso.

Enfim, cheguei ao meu destino e atendi a meu compromisso. Embora eu tenha gastado muito mais para chegar a Marechal Cândido Rondon de táxi, a prosa me fez reafirmar meu propósito de não ser egoísta querendo apenas o meu bem ou a minha qualidade de vida. O certo, afinal, é buscá-los sem esquecer a importância de si mesmo para o mundo.

Marcelo Peruzzo
No Comments

Post a Comment

Comment
Name
Email
Website